Fantasmas... Não! Não se preocupe. Não vou ocupar o seu precioso tempo com estórias sobre seres "desencarnados" medonhos, que habitam a escuridão da noite e existem para nos assustar. Não é meu hábito enveredar por essas supertições opressivas arraigadas pelo inconsciente coletivo. Os fantasmas evocados no título do post são aqueles os quais não podemos negar-lhes a factualidade, tão reais e próximos que são; são aqueles que sentimos, que alimentamos, que nos consomem, que são parte do que somos. Esses fantasmas não são manifestações ectoplásmicas de almas ou energias ruins semi-materializadas, muito menos espíritos de mortos errantes. O título do artigo pretendeu resumir figuradamente, de forma bem provocativa é verdade, o cerne daquilo que seria tratado aqui: tudo o que nos oprime, frustra, constrange, magoa, confunde. Os fantasmas dos quais eu quero tratar são as angústias existenciais, as deficiências emocionais, as contradições psico-sensoriais; quero discutir a razão de ser dos nossos males interiores em poucas linhas, afinal, minha intenção não é elaborar uma teoria filosófica ou publicar um tratado científico, mas sim expor uma opinião pessoal, fruto de reflexões experimentais cotidianas nessa minha vida de vinte e cinco primaveras. Meu desejo é contribuir com algum esclarecimento positivo a alguém que porventura se identifique com o que for exposto aqui. Oxalá que, sob a luz da Palavra, que é Jesus Cristo e o seu Evangelho, o meu desejo se cumpra na vida de pelo menos uma alma leitora.
Nossa condição existencial é ambígua, isso porque somos seres criados a ímagem de Deus, ou seja, somos seres morais e dotados com um espírito, que é o nosso elo de ligação com o criador, mas também somos materiais, constituidos de um corpo físico e suas necessidades específicas, bem como de uma alma dotada de intelecto, emoção e vontade própria. A ambiguidade do nosso ser tricotómico - espírito, alma e corpo - é fruto das tensões de propósitos do íntimo de nosso existir, que é espiritual e anseia pelo bem pleno e transcendente, com a nossa "carne e sangue", que tenciona a satisfação imediata dos desejos, vontades e impulsos que nos são subjetivos. Desse conflito entre o que se deseja e o que se quer fazer nascem as angústias emocionais e morais, nascendo também a necessidade de se obter respostas que respaldem nossa condição, nossas ações e sanem nossas dúvidas sobre tudo o que resulta de nossas lutas interiores e nossa experiência consciente no mundo. Queremos entender, compreender tudo o que diga respeito a nós e nossa relação conosco e com o meio social. No entanto, quase sempre nos frustramos em nossa busca pelo entendimento das contradicões do nosso íntimo e do que nos rodeia porque não existem respostas concretas, tangíveis para tudo ou porque nossa fonte de informações não é a adequada.
O que nos é dado saber sobre nossa condição espiritual, que deve prevalescer em nós por seu caráter naturalmente ético, está escrito no Livro dos livros, a Bíblia Sagrada. Lá está explicitado que o sentido (Logus) do existir é Espírito, Deus Triúnico, e que Nele, sob Sua vontade, tudo em nós e no mundo está claro. As tristezas, insatisfações e dúvidas não vão deixar de existir em nós quando assumirmos a participação na natureza divina do Pai (como templo e morada Dele) por intermédio do Espírito Santo, mas elas não se arraigarão em nós como herança atávica do mal, nem nos terão sob custódia de suas ações mesquinhas e prazeres fugazes, criando ilusões que nos apartam da plenitude de sermos em Deus e por Ele. As dúvidas, a mentira e o auto-engano não subsistem à intensidade da Verdade em Cristo: " Eu não rogo somente por estes (discípulos), mas também por aqueles que, pela sua palavra, hão de crêr em mim; para que todos sejam um, como tu, ó Pai, ó és em mim, e eu em ti; que também sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviastes. E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um. Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim e que tens amado a eles como me tens amado a mim" Jo 16:20-23. O amor (virtuoso, da ação, e não o conceitual) é o vínculo que nos liberta de nossa pequenês e nos eleva à plenitude da unidade com Aquele-que-é, ao qual pertencemos, nos tornando aquilo que somos em essência (porque para tal coisa fomos criados): filhos de Deus.
Busquemos a plenitude de nossa condição espiritual, e estaremos sempre satisfeitos, mesmo sob as vicissitudes de um mundo corrompido de seu estado original. Não haverá mal (e seus fantasmas) que resista a uma vida vivida com o verdadeiro propósito de estar em comunhão com o Pai.
Neemias Marcelo Damasceno

